O barbeiro não mora mais aqui
* Rosângela Trajano
Ao saudoso barbeiro da minha rua.
Hoje, dia treze de novembro do ano dois mil, a rua silenciou-se por alguns instantes. O barulho da tesoura, a navalha de barbear, a velha cadeira do barbeiro deram o último adeus ao seu querido dono. Assim como os seus objetos profissionais, que lhe seguiram a vida inteira, também estão os homens e meninos que visitavam a sua pequena barbearia.
O jovem chegou tarde para cortar os cabelos. Ouviu da esposa do barbeiro a frase mais triste da sua vida: "o barbeiro não mora mais aqui." Sem entender nada o jovem perguntou para aonde ele tinha se mudado, começou a encher a mulher de perguntas. Para a sua surpresa um menino de mais ou menos seis anos aproximou-se e falou: "agora, o barbeiro corta os cabelos dos anjinhos, lá no céu, seu moço." A mulher passou um lenço pelos olhos, e disse que seu esposo, o barbeiro, tinha morrido de madrugada. O corpo estava sendo velado numa igreja ali próxima. O jovem se foi sem dizer palavra alguma. Um olhar perdido, e passos lentos.
Todos na rua comentavam os hábitos do barbeiro. Ele não ficava um dia sem ouvir a Voz do Brasil, naquele seu antigo rádio dos anos 60. Com a idade avançada começou a andar com uma bengala de madeira. Vivia balançando a cabeça de um lado para o outro. Não era um barbeiro chique, mas costumava andar sempre bem vestido. Cada freguês que chegava para fazer a barba ou cortar o cabelo, o menino ia logo dizendo: '"o barbeiro não mora mais aqui."
Muitos dos seus fregueses tinham se tornado homens de negócios, e estavam distante na hora da sua partida. Nem ao menos puderam se despedir. Alguns só depois de muito tempo saberiam da sua morte. Até os meus irmãos, que acabavam adormecendo na cadeira do barbeiro todas as vezes que iam cortar os cabelos, só iriam dar o adeus mais tarde quando a notícia já tivesse se tornado velha. Meu irmão mais novo ficava danado de raiva quando mamãe mandava ele ir ao barbeiro. Reclamava que ele não sabia cortar cabelos, que ele demorava muito, que as mãos dele tremiam demais, tinha medo de que ele cortasse a sua orelha e blá, blá, blá... mas mamãe mandava mesmo assim, era o barbeiro da família, sem contar com o precinho todo especial que ele fazia para os fregueses antigos.
Nesse último adeus ao barbeiro, ficam as nossas singelas homenagens aquele homem que amava a sua profissão, dedicando toda a sua vida as conversas com os fregueses que freqüentavam a barbearia só para baterem um papinho. Agora, o barbeiro foi convidado por Deus para cortar os cabelos dos anjos, como diz o menino do começo da história.
Rosângela Trajano é licenciada em filosofia e mestra em estudos da linguagem.




