O fusca de papai
Rosângela Trajano
Certo dia, papai chegou em casa todo feliz. Parecia que tinha visto um passarinho azul. Pois bem, o motivo de tanta felicidade estava em frente da nossa casa: um fusca branco que papai tinha comprado. Ele convidou mamãe para um passeio, nós ainda não tínhamos nascido. Esta história foi mamãe que me contou. Mamãe, é certo, orgulhava-se de papai. Via nele um homem de bom coração, humilde e cheio de sonhos.
Mamãe conta que naquele tempo, papai juntava dinheiro debaixo do velho colchão de palha. Trabalhava dia e noite, parecia um tetéu. Era a luta por dias melhores. Ela, costureira; ele, pedreiro. Elas no conta, ainda, que papai ajudou a construir casas e prédios belíssimos. A casa em que moravam mal dava para colocar os móveis; alguns utensílios domésticos do tipo: panelas, baldes, bacias e vassouras eram pendurados por cordas no telhado. As mãos de papai cheias de calos, a roupa coberta da poeira do barro e os pés cortados pelo cimento. Ainda assim acreditou em todos os seus sonhos que não eram pequenos e foi vivendo para eles. Cansado de andar à pé, o desejo de comprar um carro cresceu tanto que sonhava até mesmo acordado.
Naquela noite, os dois saíram a passear pelas pequenas ruas da nossa cidade. Estavam tão felizes com o carro. Nem perceberam o tempo fechar rapidamente e em breve começou uma chuva forte. Ah! Mas tudo era só alegria. Para que se preocupar com a chuva se o carro podia protegê-los? Continuaram o passeio. Papai dirigia com cuidado e devagar. Já tinham dado voltas e mais voltas pela pequena cidade que se resumia em seis grandes avenidas. Passava da meia-noite e os dois continuavam o passeio. Papai parecia um menino. Em tudo tinha um motivo para buzinar. De repente, quando menos esperavam o carro parou. Mamãe olhou-o espantada e ele tentava, desesperadamente, fazer o carro andar. Depois de alguns minutos desceu para olhar o que tinha quebrado. Ora, mamãe não entendia de mecânica de carro mesmo assim foi ajudá-lo. Papai mexia aqui e acolá, tirava uma peça do canto e não sabia mais aonde colocá-la. Tentou várias vezes ligar o carro, deu-lhe beijos, fez-lhe carinhos, porém o carro não estava nem aí para os seus pedidos. Depois de horas, decidiu procurar um mecânico. Enquanto mamãe ficou no carro assumindo a função de vigilante.
Diz mamãe que papai retornou trinta minutos mais tarde, com um rapazinho magro que carregava uma mala de madeira cheia de ferramentas. O caso foi engraçado. Mamãe pensou que o mecânico desmontaria o carro ou fazer uma operação nele. Contudo, não foi preciso usar nenhuma ferramenta. O jovem sentou-se diante do volante com a pose de um gênio e tentou ligar o carro, mas nada. Em seguida, olhou o painel e com um sorriso irônico disse: - Seu João, o carro está sem gasolina.
Retornaram para casa empurrando o carro que ficou parado durante vários dias, à espera do dinheiro da semana de trabalho de papai para poder comprar a gasolina. Mamãe mostrou-nos uma fotografia amarelada dela e papai: abraçados e encostados no fusquinha, em frente de casa. Aquela foto ficou em minhas lembranças até hoje.
Rosângela Trajano é licenciada em filosofia e mestra em estudos da linguagem.




