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FILOSOFIA PARA CRIANÇAS

Projeto Giges

Filosofia na rua através da literatura infantil

Sou uma pessoa física que há mais de dez anos procura alimentar algumas crianças com a fantasia do faz-de-conta e a filosofia. Necessito muito da sua ajuda, pois preciso de lápis de cera, lápis grafite, borracha e papel ofício. Caso possa ajudar ou deseje maiores informações entre em contato comigo através do meu e-mail: rosangelatrajano@hotmail.com

Um encontro com as crianças na calçada em julho de 2003.

Eu costumo dizer que o Projeto Giges é um grande caldeirão onde uma mistura de crianças e historinhas faz uma poção de filosofia. Uma poção sem receita pronta. Em cada encontro há mudanças. Uma poção que tem sabor de fantasia, imaginação, encanto, magia, criatividade e muita alegria. São crianças de várias idades, histórias as mais diversas, perguntas sem respostas, respostas sem perguntas, diálogos que puxam outros e mais outros e corações pequeninos que só desejam algo diferente: ouvir histórias.

As crianças das regiões urbanas, moradoras dos bairros da periferia da cidade de Natal, não perderam totalmente as brincadeiras tradicionais. A invasão das lan houses, dos videogames, da televisão e mais recentemente, dos computadores não as fizeram esquecer o brincar na rua. São, na maior parte, crianças saudáveis, cheias de energia, correndo de um lado para o outro, subindo calçadas, descendo ladeiras, brincando no mangue, jogando bola ou empinando papagaio.

Mas a leitura não tem espaço para esse mundo maravilhoso, nele as crianças só querem saber de brincar. Sem leitura essas crianças não conhecem outras culturas e o conhecimento é reduzido ao ensinado na escola. O gosto pelo saber, pelo pensar crítico e pelo perguntar não existe mais. - Perguntar para quê? Se ninguém responde às minhas perguntas – disse-me uma delas outro dia. O que mais me espantou foi o fato dessas crianças estarem muito envolvidas com a realidade apresentada pela televisão ou vivenciada pelos seus pais, ora querendo saber como ajudar o pai ou a mãe a conseguir dinheiro para comprar o gás, ora querendo descobrir por que a mocinha da novela das oito tem tanto dinheiro sem trabalhar. Elas não falam em princesas, fadas, papai noel, bichos falantes, bruxas ou gnomos.

Foi numa véspera de natal que mais me surpreendi com a falta de imaginação e encanto de uma dessas crianças quando falei que era dia de esperar papai noel. A menina olhou para mim e disse: - Papai noel não existe. – Descobri que não era só papai noel que não fazia parte do seu mundo, mas todos os outros personagens do mundo do faz-de-conta, pois a cada pergunta que eu fazia sobre fadas, príncipes e princesas ela não sabia me responder e insistia em dizer que tudo aquilo era invenção dos adultos para fazer as crianças dormirem cedo.

Diante da realidade dessas crianças pensei em fazer alguma coisa por elas para dar mais encanto e magia às suas vidas. E cheguei ao pensamento de que se eu lesse histórias poderia entrar no mundo delas aos poucos, pedindo permissão, devagarzinho, até mostrar-lhes o mundo maravilhoso do faz-de-conta. Ler histórias pode ser suficiente para criar o amor pelo falar de si e pelo ouvir a si e a os outros mudando a forma de uma criança enxergar a vida e o mundo.

E assim, na intenção de unir tradição, sabedoria e literatura infantil surgiu no dia 13 de janeiro de 2001 a idéia da criação de um projeto em que seriam lidas histórias às crianças para incentivá-las a filosofar sobre a filosofia de cada uma.  Levei um ano para descobrir como ler as histórias, quais as histórias e qual o objetivo a ser atingido. No princípio, seria uma espécie de leitura de um livro com conteúdo filosófico em voz alta. Quando as crianças souberam que teriam historinha (termo utilizado pelas crianças da minha rua ou por outras menores) naquele sábado, elas ficaram tão maravilhadas que não se contentaram de alegria.

Desenhos

Selecionei alguns desenhos que as crianças fazem depois da contação de histórias para vocês verem que a história bem contada se imprime verdadeiramente na alma.

Willian - Mito da Caverna

Kimberly - Mito de Erisíchson

Renata - Os três porquinhos

Thais - História sobre a paz

O nome Projeto Giges tem despertado dúvidas, curiosidade, críticas e sugestões. No entanto, preciso esclarecer o motivo da escolha desse nome, que à primeira vista não parece nada virtuoso. Mas com base no meu pensamento vivemos num mundo de transformações, sendo assim, esse é o que melhor se adequa ao ambiente, à forma de vida das crianças e aos meus objetivos. 

Tudo começou a partir da leitura do mito de Giges, no Livro II, A República, de Platão. Giges é um pastor virtuoso. Depois de encontrar um anel mágico capaz de torná-lo invisível passou a ser um homem mau e ambicioso. Assim como nos contos de fadas os encantos podem fazer o bem e o mal. Giges não pode ser chamado de herói. Fez muitas maldades e chegou a assassinar um rei. As crianças do Projeto vivem rodeadas por animais. Ainda há muitas árvores nas proximidades das suas casas. Algumas cuidam desses animais e até são recompensadas por isso.

Nos dois gêneros lidos às crianças ficou o carinho pelos bichos falantes e o maravilhoso dos encantos e magias dos contos de fadas. Aqui podemos ver a proximidade com o mito de Giges e a vida dessas crianças, no que diz respeito ao carinho pelos animais e as árvores. Os homens são todos os dias postos a provas diante das suas virtudes e valores, os problemas sociais, a incompreensão alheia, a falta de perdão, a insensatez e tantos outros elementos causadores da destruição dos bons princípios, acabam modificando a sua alma. Por melhores que sejamos, estamos propícios aos vícios, segundo Descartes: “as maiores almas são capazes dos maiores vícios, tanto como das maiores virtudes...” [1]

Todo homem já sentiu raiva um dia e errou. São essas mudanças uma alusão ao anel de Giges. Mudar faz parte da humanidade. No caso de Giges ele mudou para pior. Isso não significa que as crianças do Projeto venham a sofrer essas mesmas mudanças, ao contrário esse nome lembra a todo instante que devemos mudar sim, mas para melhor. Somos pensantes e sonhadores e só com muito esforço e perseverança iremos conquistar os nossos objetivos. Platão deixa o mito em aberto para darmos continuidade. Ele não diz o que aconteceu com Giges depois. É possível que ele tenha voltado a ser um homem virtuoso, como é possível também que sua maldade tenha crescido. Todo encanto tem seu tempo para acabar. O encanto do anel pode ser representado hoje pela constante violência que cresce a cada ano e tem amedrontado a humanidade. Distanciar as crianças desse “encanto” é o meu desejo. Projeto Giges significa simplesmente: a escolha para uma vida melhor só depende de mim: eu sou o encanto que o mundo precisa. 

No dia 12 de janeiro de 2002, sábado, às 19 horas, a calçada da minha casa estava tomada por crianças. Algumas tímidas outras cheias de esperteza. Crianças que nunca tiveram um leitor de histórias. Não posso afirmar que nunca ouviram histórias, pois nas escolas as professoras ainda se esforçam para conservar esse hábito, mesmo que de forma precária e sem jeito para o desenvolvimento da mesma.

No primeiro encontro contei cerca de trinta crianças. Não sei se era a empolgação do grupo estar todo reunido ali, se era a vontade de ouvir uma historinha ou a curiosidade pelo novo, mas todas as crianças tinham um olhar espantado e um sorriso grande! .

Ao final da história, que teve duração de mais ou menos trinta minutos, as crianças queriam mais, e só foram embora depois de convencidas de que no próximo sábado teria mais uma historinha.

O projeto continua e hoje conta mais de dez anos. Apesar dos obstáculos e dificuldades que não são poucos, a leitura de histórias vem modificando a vida das crianças na demonstração de amor às historinhas, à vida e ao mundo.

[1] DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo: Martin Claret, 2000. p. 21.

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