Uma história de fada madrinha
* Rosângela Trajano
Ontem, após vários anos, retornei à minha casa. Como de costume, sentei-me à calçada como nos velhos tempos de infância e adolescência. De repente, me veio a lembrança de uma mulher que todas as noites, entre nove e dez horas, passava pela minha rua. Ela chamava a minha atenção pelo fato de sair tão tarde de casa. Era bonita, muito bonita. Tinha os olhos verdes, morena clara, um corpo cheio de curvas. Vestia-se dentro das suas condições. Mas toda roupa que colocava no corpo caía-lhe bem. Usava uma bolsa tiracolo preta e tamancos altos. Gostava de um batom de vermelho forte.
Minha mãe, certa vez, para não matar a minha inocência respondeu-me que ela era enfermeira quando lhe perguntei para onde ia aquela mulher todas as noites. Acreditei até os meus treze anos de idade. Quando soube que aquela mulher que tanto admirava, que tinha o olhar distante e um sorriso perdido pelas amarguras da vida ganhava a vida vendendo o corpo nas esquinas do bairro da Ribeira, quase não acreditei. Minha enfermeira, heroína, que me fazia imaginar como era cuidar dos pacientes noite adentro, não passava de uma mulher da vida vendendo seu corpo frágil e delicado por algumas migalhas. Todas as pessoas do bairro sabiam o que ela era, no entanto, sempre impôs respeito.
Esperei alguns dias aquela bela mulher passar, mas passou. Perguntei a mamãe por ela e tive uma grande surpresa: “Sua vida mudou." Respondeu-me mamãe.
Hoje, a mulher que antes vendia o corpo para alimentar os filhos, vive numa casa com móveis e os filhos na escola. Ela agora é outra pessoa, disse minha mamãe. Está muito mais bonita!
Na vida dessa mulher apareceu uma fada madrinha que lhe deu de presente novos sonhos e a esperança de que nunca é tarde para recomeçar. Essa fada madrinha apareceu num momento em que a mulher mais precisava: a mulher estava grávida, prestes a ganhar nenê, os filhos doentes e sem educação, uma moradia improvisada debaixo de uma ponte e deitando-se com um estranho à noite para ter dinheiro de comprar o pão dos filhos. Era a sua profissão, sem carteira assinada.
A fada madrinha conheceu a mulher por acaso numa dessas enormes avenidas da cidade. A mulher caminhava segurando a mão de um dos filhos menores acompanhada por mais dois. Os meninos com os pés cheios de bicho de pé. A fada madrinha parou o carro e viu aquela cena. Só Deus pode explicar o gesto daquela senhora ao descer do carro, perguntar para onde a mulher estava indo com aquelas crianças e oferecer-lhe uma carona. No caminho, dentro do carro, recolhida no banco da frente a mulher parecia tímida e sem jeito diante da sua fada madrinha. Iniciaram uma conversa. A mulher falou da sua vida, abriu seu coração. A fada madrinha deu o número do seu telefone para a mulher: ligue-me assim que puder.
Desse encontro maravilhoso, sem explicações lógicas, coisas que o destino nos apronta, surgiu uma luz para a mulher. Três dias depois estava empregada na casa da sua fada madrinha, foi bem recebida por todos da casa e aos poucos recebeu ajuda de um e de outro. A fada madrinha mudou a vida daquela mulher, comentou a minha mãe. Fadas existem, basta acreditar.
E hoje a rua dorme cedo, porque a mulher não passa mais às dez horas com seu perfume e sua beleza exuberante.
Rosângela Trajano é licenciada em filosofia e mestra em estudos da linguagem.




