Mamãe é professora
* Rosângela Trajano
Às professoras do meu Brasil pelo milagre da vida.
Mamãe acordou cedo. Ela vai dá aulas. Ontem, à noite, ficou até tarde preparando as aulas de hoje. Mamãe alfabetiza crianças, jovens e adultos. Eu não sei qual o segredo de mamãe, mas muita gente já aprendeu a ler com ela. Penso que mamãe tem uma fórmula mágica que faz seus alunos aprenderem a ler e escrever com maestria. Mas como pode uma pessoa que mal terminou o ensino fundamental alfabetizar pessoas? É que mamãe ensina por contra própria, não ganha um vintém por isso, faz por amor, amor pela educação.
Ela anda três quilômetros a pé. Na estrada de barro, cheia de buracos e lama. Quando está chovendo se cobre com um saco plástico e sai na hora certa para não chegar atrasada na escola improvisada onde cem alunos lhe esperam. Mamãe ganhou do governo um quadro-negro e giz escolar. A escola está crescendo. Já tem banco de madeira e uma mesa grande onde todos se acomodam como podem. Muita gente fica em pé. Tem gente que não tem dentes, gente que vai descalça, gente que trabalha o dia inteiro, gente que só tem um braço, gente que perdeu os filhos, gente que nem sabe o nome, gente com fome, gente sem família...tem gente de todo jeito. No entanto, toda essa gente tem uma alegria bonita de se ver, vive sorrindo, sorrir que é uma beleza. É a cara do Brasil. O primeiro aluno de mamãe foi um índio que insistiu em aprender a escrever o nome herói e ninguém sabe o porquê.
Mamãe conseguiu uns livros com essas pessoas queridas que doam o que têm, porque não querem acumular coisas velhas em casa. E pensar que tem gente que acha que livro pode ficar velho...Na escola de mamãe ela é a única professora. Se ela falta não tem aula. Quando eu era pequeno, mamãe me levava nos braços para a escola. Foi lá que aprendi a ler e escrever. De lá saí para o mundo. Me tornei um doutor. Mamãe continua na escola fazendo gente crescer, gente que às vezes parte e depois volta para agradecer.
Mamãe passa o dia todo na escola. Ela ensina a cem alunos pela manhã, cem alunos à tarde e a cento e sessenta e sete alunos à noite. Quando chega em casa, mamãe vai preparar o jantar. Cansada, coitada. Mas, alegre porque seu José aprendeu o abc. Quando um aluno de mamãe aprende a escrever o nome ela faz uma festa com bolo e tudo mais. Mamãe é mais do que uma professora. É a psicóloga daquela gente. Ela ouve a todos. Mas para todo e qualquer problema mamãe sempre diz: estude. Se a pessoa estiver com dor de barriga é isso que ela vai dizer.
Eu me tornei um doutor. Mas não tenho a experiência de mamãe. Mamãe que enfrenta a dor e o cansaço, com as pernas cheias de varizes e um joelho machucado por uma queda levada nos batentes improvisados da escola, mamãe não está nem aí ela quer é ensinar. Mamãe coloca uma blusa e uma saia de tecido de chita, calça uma chinela, penteia os cabelos e os prende e vai até a porta. Ela olha para o céu, como se estivesse em prece fica ali por alguns segundos. Depois pega os livros e sai. Faz trinta anos que mamãe ensina num vagão velho de trem por onde passou a primeira estrada de ferro da região norte do país. Hoje, abandonado, serve como a escola de referência daquele pequeno povoado que nem eu sei o nome.
Mamãe diz que ser professor não é fácil. Ela sempre sonhou em ser doutora. Mas não foi terminar seus estudos na cidade grande, porque não podia deixar aquele povo sem aulas. Mamãe se formou na escola da vida. Seus alunos se formaram nas academias formais. Muitos se tornaram professores, estes nunca vieram visitar mamãe. Estão nas universidades fazendo teses sobre os famosos intelectuais que mudaram a história do mundo. Mamãe merecia uma tese. A tese que não fiz. Até eu fui ingrato com mamãe? Não. Eu não podia falar de alguém que só existe para um povoado que nem nome tem.
Amanhã mamãe vai completar oitenta e dois anos de idade. Ela faz aniversário no dia doze de maio. É perto do dia das mães. Nesse dia na escola não tem aula. Então ela fica em casa. E ganha de mim um presente que desde criança lhe dei: um beijo e uma flor desenhada numa folha de papel amarelada. Eu não cresci para mamãe, continuo seu aluno do abc. E ela continua a professora com doze anos de idade para seu José, dona Chica, seu Xavier e seu Antônio.
Rosângela Trajano, é licenciada em filosofia e mestra em estudos da linguagem.




