A menina e o carrinho de compras
Rosângela Trajano
Há coisa que não podemos ignorar, cruzar os braços, fechar os olhos, ficar assistindo como se fosse uma cena de novela ou simplesmente não interrogar o porquê. Cenas que nos roubam a atenção e nos levam a uma reflexão sobre um dos maiores problemas brasileiros da atualidade: as crianças de rua. Não podemos ser indiferentes às coisas só porque elas não acontecem conosco.
Era uma manhã de sábado ensolarada. Estava num supermercado de uma cidade grande, na minha rotina de sempre: o corre-corre desesperado, o vício de está sempre olhando para o relógio, as reclamações do intenso calor e principalmente da tarefa de fazer compras. O pior dia para mim era o de ir ao supermercado.
Enquanto as minhas amigas estavam tomando chá, conversando, escovando os cabelos ou fazendo as unhas, eu estava ali naquele supermercado cheio de gente comprando de tudo um pouco: cebola, sabão, detergente, biscoito etc. Apesar de tudo isso, ainda não fui corrompida pelo egoísmo, hipocrisia e ambição. Também, ainda, não perdi meu senso de observadora. Parei para olhar uma menina que empurrava um carrinho de compras toda sorridente, aquilo chamou a minha atenção. O que mais despertou a minha curiosidade foi a quantidade de produtos que ela colocava no carrinho. Olhei para os lados e percebi que ela estava sozinha. Resolvi me aproximar dela e isso lhe causou um grande susto, principalmente quando perguntei pela sua mãe. Não imagino o que pensou que eu fosse, só sei que apressou-se em dizer que sua mãe estava lhe esperando de frente ao supermercado, no carro, e que já era acostumada a fazer as compras sozinha. A mãe dela não gostava de fazer compras. Achei intrigante aquela história, mas não cabia a mim interrogar aquele rostinho meigo e risonho que pareceu-me muito feliz por está ali. Hoje em dia é tão comum vermos crianças fazendo tarefas de adultos.
Parecia que o destino não queria tirar aquela menina do meu caminho. Várias foram às vezes em que a reencontrei recolhendo tudo o que via nas prateleiras. No seu carrinho de compras não cabia mais nada. Num desses reencontros brinquei com ela, dizendo: “Puxa! Quanta coisa, heim?” E ela novamente fez questão de dizer: “Mamãe está lá fora, vai pagar tudo.”
Terminei minhas compras. Respirei aliviada. Dirigi-me ao caixa. Uma fila do tamanho do mundo. À minha frente a menina com um carro cheio de produtos. Foi passando cada coisa bem devagar. Eu já estava impaciente. Quando terminou de passar tudo a moça do caixa disse o valor das compras. Ela coçou o nariz, cruzou os braços e disse: “Eu não tenho dinheiro.” A moça do caixa chamou o segurança do supermercado. Um brutamontes com um vozeirão mandou a menina retirar-se dali o mais rápido possível. Antes da menina sair eu a chamei. De frente para mim, com um jeitinho assustado, perguntei por que fez aquilo. Ela me disse que estava brincando de fazer compras. Um dia, teria dinheiro para comprar tudo o que gostava de comer. Perguntei onde ela morava. Ela me respondeu que não tinha casa. Morava nas ruas. Pediu-me um pacote de biscoitos recheado de morango e um refrigerante. Eu lhe dei o biscoito desejado. Sorriu para mim e desapareceu, correndo. Sem perceber deixei-me ser tomada por uma emoção forte, vieram algumas lágrimas aos meus olhos e meu coração ficou apertado. Procurei seus olhinhos tristes, mas já estava do outro lado da rua.
Agi daquela forma porque senti necessidade daquele sorriso que me conquistou, daquele olhar ingênuo e daquele sonho. Porque eu tão viva, tão bem amada, vivia inventando algo para reclamar da vida e lembrei-me de como entrei irritada no supermercado naquele dia, por motivos tão banais, e agora saía feliz.
Rosângela Trajano é licenciada em filosofia e mestra em estudos da linguagem.




