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Onde andará o motorista?

*  Rosângela Trajano

A gente se acostuma tão fácil com pessoas simples, humildes e alegres. Também ouvimos muitas pessoas fazerem críticas de outras e quando as conhecemos pessoalmente sentimo-nos profundamente transtornados com a imagem que tínhamos daquele ser maravilhoso e único no mundo. Foi assim com o motorista que meu irmão contratou por alguns dias.

Aquele homem franzino, de olhar inquieto, sorriso tímido e um grande amigo. Nossa convivência foi curta. O suficiente para eu confiar os poucos passeios que fizemos juntos, com ele na direção de um carro que sempre sonhou ser seu. Pude sentir o peso da sua responsabilidade e o seu semblante tristonho quando os colegas o paravam para perguntar como tinha comprado aquele carrão. Lembro-me bem de uma conversa que tivemos num desses passeios quando ele confessou que ficaria com saudades de largar aquela direção hidráulica, tração quatro por quatro, todo aquele conforto, pela sua bicicleta velha que estava precisando até de um pneu novo. Havia uma ponta de tristeza em suas palavras e um olhar perdido.

O motorista era diferente de tudo o que me disseram dele. Não era um irresponsável. Não era um cachaceiro. Não era um ignorante. Não era uma pessoa má. Sabia até declamar poemas de Carlos Drumond de Andrade. Descobri isso, num dia em que passávamos por uma rua que tinha no meio dela uma árvore e o motorista, risonho, falou: ainda bem que não é uma pedra no meio do caminho, é uma árvore. Nossos passeios eram sempre alegres.

O dono do carro retornou e os serviços do motorista foram dispensados. Não deixou de receber os elogios do proprietário do carro, pois o mesmo estava limpo e bem cuidado. Sem nenhum arranhão ou problemas de mecânica. O motorista fez tudo o que lhe foi pedido. Só não pôde fazer o que tinha vontade: visitar os seus parentes distantes dirigindo o carro dos seus sonhos. Talvez o destino não tenha permitido ou quem sabe apenas adiou seu sonho.

Faz algum tempo que não vejo o motorista. Às vezes me pergunto: onde andará o motorista? Será que está dirigindo outro carro possante ou desfilando pelas ruas estreitas de seu bairro com a sua bicicleta? Gostaria de saber o que faz hoje.

Sinto saudades de suas histórias cheias de aventura e suspense. Gostava de música country e de Raul Seixas. Um motorista discreto, um homem comum. Aqui, deixo a minha homenagem singela àquele que um dia, foi mais que um motorista, um amigo.


Rosângela Trajano é licenciada em filosofia e mestra em estudos da linguagem.

 

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