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O que as crianças perguntam

*Rosângela Trajano

Ensinar filosofia à crianças é ajudá-las a formular perguntas com atitude filosófica. Perguntar qualquer criança pergunta. É preciso  perguntar com o espanto e admiração, o thaumazein, de Platão. As crianças mais pequeninas ainda estão descobrindo o mundo e por isso tendem a perguntar mais. São essas pequeninas crianças cheias de porquês, como, onde, quando e etc. A criança quer uma resposta. Não importa qual? Importa,sim. O professor de filosofia nunca deve responder uma pergunta, mas em cima dessa criar outras indagações. Ir atrás do fantástico mundo do faz-de-conta da criança é uma das maneiras.

Meus alunos perguntam de tudo. Eles pensavam que a filosofia respondia, mas mostrei-lhes o contrário: a filosofia só pergunta. Quando eles me perguntam sobre a morte eu os questiono sobre a vida. Quando eles me perguntam sobre a mentira eu os questiono sobre a verdade. Quando eles me perguntam sobre a coragem eu os questiono sobre o medo. Nunca dou respostas. Faço meus alunos refletirem sobre as suas curiosidades, ter pensamento crítico e investigativo. O professor precisa saber que quando a criança vem perguntar é porque ela já sabe um pouco do que está perguntando. Ela já ouviu ou leu sobre aquilo. Ela não quer saber por exemplo que nascemos e morremos, mas o que acontece antes e depois da morte. A curiosidade infantil está nas coisas do cotidiano.

A linda Clarinha, quatro anos de idade, me perguntou certo dia por que as pessoas não caem do céu. Não respondi, mesmo porque eu nem sei que resposta daria para ela. No entanto, eu falei das estrelas, da lua, do sol, dos cometas e dos planetas. Clarinha foi mais além dizendo que já ouviu num noticiário de televisão que um cometa se aproximava da terra. Se os cometas caem as pessoas do céu também podem cair. Eu achei linda a imaginação de Clarinha e para que ela não saísse tão cedo do seu mundo do faz-de-conta eu perguntei para ela que idéia tinha para prender as pessoas no céu, as estrelas, os cometas, os planetas e etc. Ela me respondeu com um sorriso: é só usar o pregador de roupas da mamãe. Foi então que me surgiu a idéia de contar para Clarinha uma história sobre um planeta que passou milhões de anos preso num pregador e quando ganhou liberdade foi passear pelo Universo. Então ela pensou bem na liberdade e achou melhor deixar todos soltos, até mesmo as pessoas. Ao invés de pregadores colocou nas pessoas asas.

O pequenino Edu, dez anos de idade, me perguntou por que as pessoas mentem. Eu não entendi direito a pergunta e pedi para ele me explicar. Ele me disse que estava triste porque seus pais tinham mentido para ele dizendo que não estavam se separando, apenas iam passar um tempo longe um do outro. Eu falei para Edu sobre o amor e sobre o zelo. Perguntei para ele como cuidava do seu cachorro. Busquei fazer Edu refletir que seus pais só o pouparam de um sofrimento maior. Tiveram zelo por ele. Edu insistiu dizendo que as pessoas grandes vivem dizendo às crianças para não mentirem e elas mentem muito. Contei para Edu o mito do Andrógino, de Platão, e ele chegou a conclusão junto comigo de que talvez seus pais tenham descoberto de que não são almas gêmeas. Mostrei, também, para Edu que as pessoas mentirosas sofrem mais do que as que são enganadas. Busquei fazer ele compreender que seus pais não souberam como lhe explicar a separação.

Esses são alguns exemplos práticos das minhas aulas de filosofia para crianças. O que quero deixar bem claro neste artigo é a importância da pergunta da criança. O professor deve valorizar esse momento e explorar todo o universo ao seu redor fazendo a criança refletir criticamente e, quando for o caso, investigar o assunto. Não basta calar, é preciso causar ruídos. Gosto de conversar com meus alunos, porque nesses diálogos surgem muitas dúvidas e as aulas vão invadindo outros espaços. A pergunta da criança é o assunto da sua aula, por isso o professor de filosofia para crianças nunca sabe o que vai dar na próxima aula.


Rosângela Trajano é licenciada em filosofia e mestra em estudos da linguagem.

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