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Saudades da minha terra

Para Melvino, com carinho.

Estou num edifício de cento e sessenta e seis andares. Daqui eu vejo as nuvens e tenho quase certeza que sou a menina na Terra, que está mais perto do céu! Eu vivo brincando com as nuvens. E isso é só. Bem pouco para uma menina de oito anos de idade.

Não sei por que me trouxeram para cá. Às vezes, quando desço, os cento e sessenta e seis andares, estou com vontade de brincar com outras crianças. Mas aqui eu nunca vejo meninos ou meninas. Vejo muitos homens de ternos pretos, gravatas e sapatos de couro. Vejo muitas mulheres em seus belos vestidos. Mas meninos eu nunca os vejo.

Então eu subo e vou conversar com os meninos do mundo virtual, porque lá embaixo não posso ficar muito tempo: os terroristas podem chegar a qualquer momento. E o povo dessa terra vive com medo de bombas! Mando mil mensagens pelo twitter, pena que só posso escrever até 140 caracteres. Pena que não posso falar com os meninos da minha terra amada, mas lá a gente não fala caracteres; a gente fala palavras que saem pela boca; a gente olha no olho do outro; é diferente!

O que vim fazer aqui? Por que estou aqui? Quero a minha Terra! Ah! Que vontade de gritar e acordar todo mundo, o mundo todo. Cadê o meu cajueiro aonde eu me balançava? Pra me contentar me levaram ontem num parque cheio de brinquedos eletrônicos. Sem graça! Quis tomar banho de rio. Me levaram para uma piscina gigante. Experimentei a água da piscina e não é doce como a água do rio. Na piscina não tem peixinhos, nem sapos, nem grilos por perto.

Saudades da minha terra! Quero brincar! Grito! E me vem um amigo do meu pai todo desajeitado pra me fazer parar de gritar. É pior. Agora grito e choro!

- De que quer brincar, menininha?

- De esconde-esconde. - respondo.- O homem não sabe brincar de esconde-esconde. – Amarelinha! – grito, feliz! – Mas ele nunca ouviu falar nessa brincadeira.

Numa última tentativa peço para ele:

- Vamos brincar de cantiga de roda? – O homem me olha meio sem jeito.

- Se você quiser posso cantar um rock bem legal para você. – O homem não sabe o que é cantiga de roda.

- Aonde você nasceu? – Pergunto irritada com aquele homem que parece não ter tido infância.

O homem não me responde. Veio com um vídeo-game para brincarmos. Eu agradeci. Com o coração em formato de tomate amassado voltei a chorar. Se ao menos ele soubesse contar uma história. E eu peço pra o homem me contar a história do lobo mau.

- Quem é o lobo mau? – Pergunta o homem, coçando a cabeça.

- Você nunca foi criança? - Revoltada, pergunto.

Antes de responder, o homem sai correndo da sala com a arma em punho, pois o alarme tocou. E quando o alarme toca é hora de todos os seguranças ficarem atentos a qualquer pessoa estranha no prédio. Eu fico é contente, pois quem sabe é um desses meninos peraltas que veio me salvar dessa terra de gente que parece robô.

Volto a ficar sozinha. Meus pais adotivos estão ocupados demais atrás de dinheiro. Não sei por que meus pais verdadeiros foram morrer cedo. Saudades do Nico, do Júlio, da Rita, do Edu, do Melvino. Saudades dos meninos que me ajudavam a pescar uma piaba.

Se ao menos Melvino estivesse aqui nós poderíamos brincar de médico, e ele certamente consertaria todos esses brinquedos quebrados que estão querendo jogar fora. E eu os escondi para presentear os meninos da minha Terra que brincam com cavalos de madeira e bonecas de pano.

Vou dormir pra sonhar com a minha Terra e esquecer um pouco esse lugar sem árvores, sem pássaros, sem lebres, sem minhocas. Esse lugar cheio de edifícios e gente miúda escondida atrás de computadores.

Quem sabe quando eu acordar Papai do Céu tenha me levado de volta pra minha Terra. Este aqui não é o meu lugar. Sou intrusa. E eles são estranhos para mim. Eu nem vejo estrelas no céu daqui, logo eu que adoro contar estrelas. Hoje vou dormir contando carneirinhos, como Melvino me ensinou.

- 1, 2, 3, 4, 16, 21, 44, 47, 98.... carneirinhos!

E na metade do meu sono sou acordada pelos meninos da minha Terra, inclusive o Melvino, que me dão um abraço e me levam para passear na floresta, no meio da minha casa. Lá estão o meu cajueiro com o meu balanço! Brinco a noite toda com os meus amiguinhos. A manhã chega. Alguém está a me acordar. Estou deitada no chão e perto de mim uma folha verde do meu cajueiro. Não há mais florestas. Não há mais amigos. Tudo foi um sonho?

Hora de ir pra escola. O motorista já está à minha espera. Eu preferia ir andando. Assim quem sabe descobria algo novo nessa Terra barulhenta. Pra minha surpresa o motorista tinha algo novo: um sorriso. E o dia começou bem para mim, com aquele sorriso do motorista que sempre estava tão sério. Ao menos isso numa Terra aonde ninguém sabe sorrir.


Rosângela Trajano é licenciada em filosofia e mestra em estudos da linguagem.

Figura1 figura2