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A história de natal do menino sujinho

* Rosângela Trajano

 

Ele ia à escola sem tomar banho. Tinha os pés cheios de bicho. Os cabelos desalinhados parece que nunca viram um pente. Os dentes amarelados. Um menino magro. Ia à escola tão-somente para merendar. Na hora da merenda o menino sujinho comia uma, duas, três...vezes. Ele tinha fome, tinha sede, mas não queria tomar banho.

Um certo dia, a professora comprou um kit higiênico: um sabonete, um creme dental e uma colônia perfumada. O menino tomou um banho. Limpou os dentes, as unhas dos pés e das mãos. Lavou os cabelos. Antes, as outras crianças não queriam ficar perto dele, agora ele brincava com os outros meninos. Parecia feliz.

Mas o menino desapareceu da escola a partir daquele dia. Nunca mais voltou. Na véspera de natal eu e a sua professora fomos visitá-lo. Ele morava num povoado bem pobre. Como descrever uma casa que não parece com uma casa? Vou tentar. São quatro paredes, duas pela metade, sem piso, sem portas, sem janelas, sem telhado. Para dizer melhor, o telhado da casa é uma lona preta. Uma casa toda suja. Cheia de moscas. Seu pai é um alcoólatra, sua mãe lavadeira de roupas. Tem oito irmãos, todos pequenos. Os meninos de barriga inchada, cabelos arrepiados, nus. As meninas com as calcinhas sujas, a boca sem dentes, os pés pretos de sujeira. Tive pena daquelas crianças.

A professora perguntou ao menino se ele sabia o que estávamos comemorando naquele dia. Ele disse que não. Eu perguntei se ele já tinha visto um Papai Noel, ele disse que não. Perguntei se ele não tinha visto Papai Noel nem na televisão. Ele me respondeu com uma pergunta. “O que é uma televisão?” - E se Papai Noel aparecer na noite de natal o que você vai pedir a ele? – Perguntei. – O menino sujinho disse que tinha muitas coisas para pedir, porém o que ele mais queria era ganhar os tijolos para seu pai terminar de construir a sua casa. Eu me espantei com aquele pedido. As crianças sempre pedem bonecos, trem, avião, carros, bolas. Aquele menino queria tijolos.

Deixamos um peru assado para o menino jantar na noite de natal. Voltamos eu e a professora da casa do menino sujinho. Era véspera de natal. Perto da sua casa não havia nenhuma árvore de natal, nenhuma decoração que representasse esta data tão bela. Um povo que tinha fome. Um povo que não tinha nada dentro de casa. Passamos por uma casa aonde tinha uma mulher na porta com cinco filhos pequenos e um na barriga. Passamos por outra casa onde uma velhinha estava sentada num tamborete catando piolhos da cabeça de uma menina. Fomos andando até chegarmos ao centro da cidade.

Entramos no banco. Pegamos o nosso décimo terceiro salário. Olhamos uma para a cara da outra. Sem palavras nos dirigimos para um depósito de material de construção. Compramos um milheiro de tijolos e mandamos deixar na casa do menino sujinho. Com um bilhete escrito que dizia mais ou menos assim:

Minha criança querida,

Ouvi seu pedido. Aí estão seus tijolos.

Feliz natal!

Um abração do

Papai Noel.

Passados alguns dias, já no ano novo encontramos o menino sujinho brincando em frente a sua casa. Brincava com uns ossinhos pequenos. Perguntamos que brinquedos eram aqueles. Ele nos falou que gostou muito do peru, mas do que mais gostou foi dos ossos porque serviu para fazer deles brinquedos. E nos mostrou soldadinhos e um monte de animais de ossos, apontando para um determinado osso que dizia ser um leão, depois mostrou outro que era um elefante e do pescoço do peru ele fez um gigante valente. Crianças pobres têm um mundo imaginário bastante rico.


Rosângela Trajano, é licenciada em filosofia e mestra em estudos da linguagem.

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