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Mãe Xiquinha e seus raminhos de cura

* Rosângela Trajano

Ontem, na sala de aula, questionaram sobre as crenças e costumes populares. Falaram de tudo, mas algo chamou a minha atenção. Alguém, lá, nas últimas carteiras da sala, disse que fez uma visita a uma curandeira e surpreendeu-se com a sua fé. Ouvi risos baixinhos, comentários sutis, olhares críticos.  Disse que bastou a curandeira começar a rezar para os raminhos de arruda irem murchando aos poucos... a Física explica, a Filosofia critica. Não sei porque o homem vive buscando explicações para as coisas que nos fazem bem.

A fé muitas vezes é confundida com religião. Mas, a verdadeira fé, está na alma daquelas pessoas que não existe o impossível. Recordei-me, com tamanha saudade, da minha eterna e saudosa bisavó, a Mãe Xiquinha. Naquela época, eu não tinha esses conhecimentos das ciências e nem os da filosofia. Eu acreditava em tudo e não sei se isso era bom ou ruim. Podia comparar-me a qualquer pessoa que especulava apenas o prazer de viver. Eu era feliz. Aquele raminho a passear pelo meu rosto, o Pai-Nosso, a Ave-Maria, algumas palavras que nunca consegui ouvir, porque ela as pronunciava baixinho; o abrir e fechar de boca, três ou mais vezes era olhado na certa.

Não sou dona da verdade, nem quero roubá-la dos sábios. Faço da minha fé os pilares das minhas conquistas. Temos muito a aprender com os curandeiros, pois meus primeiros passos foram dados ao lado dessa bisavó que ora vos falo. Ela não era nem uma sábia, doutora, mestra, era apenas uma mulher que sabia viver com as suas crendices. Mãe Xiquinha não comia carne na sexta-feira, fazia jejum na semana santa, e não tomava banho na quarta-feira de cinzas. Para cada uma dessas coisas havia uma explicação baseada na sua sabedoria e fé. Quem sabe, isso explique a todos nós que Mãe Xiquinha morreu aos oitenta e dois anos de idade sem nunca ter ido ao médico por sua vontade própria. Quem sabe, isso explique, também, uma queda que levou de cima de uma árvore, após aventurar-se feito menina teimosa, aos setenta e cinco anos, e não sofreu nenhuma fratura pelo corpo. Ela curou os ferimentos com seus matinhos e água benta. Usava um terço no pescoço e rezava, sempre, antes das refeições.

A minha Mãe Xiquinha ensinou-me a correr atrás dos meus sonhos, e acreditar que tudo é possível quando se tem na alma um coração batendo cheio de vontade de viver. A fé está em você, olhe o sol e pergunte-o o por quê dele desaparecer à noite. Quem fez você acreditar na rotação da terra? Por que você não aceita que o sol foi prosear com o mar ? Pense nisso, e tenha fé em tudo o que pretender alcançar, até mesmo para as suas respostas filosóficas e científicas.


Rosângela Trajano é licenciada em filosofia e mestra em estudos da linguagem.

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